sexta-feira, 8 de maio de 2015

Falar com um doente de Alzheimer: se não se lembra porque pergunto?

No nosso dia-a-dia as conversas fluem sem que tenhamos que nos preocupar, de forma significativa, com o que estamos a dizer, se a outra pessoa entende, se se lembra do que estamos a falar, se se lembra de nós… enfim… mas quando interagimos com alguém que sabemos ser portador de alzheimer a nossa atitude, o que dizemos e a forma como o dizemos tende a mudar.
Será isto bom?
Porque o fazemos?
A verdade é que, após o diagnóstico, parece que no discurso de cada pessoa que interage com o portador da doença de alzheimer se procura a confirmação de que o diagnóstico está correto e todos nós nos centramos no problema… lembra-se?... Não se lembra? … E a multiplicidade de interações que até então era possível estabelecer, de um momento para o outro passa a focalizar-se em exercícios de memória (para além dos que a estimulação cognitiva já pressupõe) e deixamos de “ver” a pessoa para procurar o seu “baú das memórias”.
Estamos inseguros. Temos medo do que podemos encontrar naquele momento e n
o que iremos encontrar no futuro. Não sabemos como agir. Centramo-nos no problema e não conseguimos rever aquela pessoa como ela sempre foi… agora já não é só a Maria… é a Maria que tem Alzheimer… sempre e para sempre.
Ao centrarmos o nosso discurso num interrogatório sem fim sobre se se lembra de alguém, de algo, ou de alguma situação, estamos a confrontar a pessoa constantemente com a sua dificuldade, a acentuar a sua desorientação porque acabamos por referir coisas de que efetivamente não se lembra, e a provocar constrangimento, frustração e raiva.
É importante dar um ambiente calmo, tranquilo, acolhedor, que não confronta a pessoa com a sua própria desorientação, para que possam manter alguma estabilidade emocional e aproveitar as relações afetivas significativas de forma prazerosa para todos.
Não devemos estar sempre a perguntar se se lembra de algo específico, procure antes partilhar as suas memórias com ele ou com ela. Desta forma está a estimular a memória da pessoa portadora de Alzheimer e ela irá manifestar-se caso se lembre dessa situação.
Evite discutir ou confrontar a pessoa corrigindo-a ou contradizendo-a. Aceite a narrativa da pessoa portadora de Alzheimer, as histórias, mesmo que não correspondas às suas e sempre que o tema seja sensível ou conflituoso procure mudar de tema para não se irritarem.
Evite temas que possam perturbar a pessoa portadora de Alzheimer, por exemplo, não fale de entes queridos que já faleceram ou não a confronte com a sua morte, a menos que seja questionado/a diretamente sobre se aquela pessoa já morreu.

Estabeleça uma relação positiva e mantenha um diálogo construtivo, baseado na partilha de experiência vividas.

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